Quando eu, Erica e nossos primos e primas éramos crianças nosso Tio Cizé sempre foi alvo de nossa imaginação.
Ele era diferente dos outros tios. Era o único que não era casado e não tinha filho pra brincar conosco. E morava com nossos avós. Veja só!
E ele para nós sempre foi um mistério.
“Mãe, ele fala inglês? Eu não entendo o que ele fala”.
Somente aos poucos fomos aprendendo o que significava deficiência auditiva.
Mas o mistério que rondava Tio Cizé estava ainda mais ligado ao seu quarto. Ele sempre andava com a chave do quarto e o deixava fechadinho da silva. Queríamos passear por lá, ver o que tinha dentro, mas estava sempre trancado e quando pedíamos para entrar Tio Cizé nos dia, ranzinzamente, coisas que não entendíamos...
Só fomos descobrir o que havia dentro desse misterioso quarto depois que crescemos. Era um quarto como outro qualquer. A diferença era que seu dono era muito organizado e reservado.
Fomos percebendo que nosso Tio Cizé era uma figura ímpar. Bruto e grosso como só aquele quase albino sabia ser. Mas sabem como terminava toda briga com ele? Em risadas!
Sim,
Uma figura realmente diferente.
Daquela que arruma tudo sozinho, lava a própria roupa, trabalha e ama o que faz, não esquecia NUNCA o aniversário de ninguém, que comprava DVD/CD e depois de assistir/ouvir queria vender por um valor mais caro e ainda chamava seus possíveis compradores de “amarrado”, “mão de vaca”.
Uma pessoa que bastava dar um pouco de atenção que ele sorria. Igualzinho a uma criança. Bastava chegar com um presentinho e puxar conversa que ele ia longe. Uma criança crescida.
Minha vó sempre dizia que quando morresse, vinha buscá-lo.
“Lá vou deixar esse maluco aqui sozinho!”.
Então, vovô morreu. Não lembro muita coisa porque eu ainda era muito criança. Mas sei que meu tio ficou cada vez mais apegado a vovó.
Ano passado vovó faleceu. E aí a vida dele começou a mudar. Lembro que no enterro dela, dava dó de olhar pra ele e ver o estado que ele estava. Sua tristeza desesperadora estava ali para quem quisesse ver.
Depois de passado o pior momento, ele começou a elaborar seu luto.
Minha família carniceira só pensava no dinheiro da pensão de vovó e para isso foi à Justiça para ele ser considerado incapaz e receber essa pensão. Ele, então, teve que sair do trabalho que tanta amava e tinha feito tantos amigos com seu jeitão.
Incapaz? Incapaz é quem só consegue enxergar cifras na frente dos olhos
.
Sabe como ele me chamava? Giafa (girafa), dizia que eu ia casar com um negão de Estivas (interior de vovó) e ainda me mandava ir trabalhar:
“Vai trabaiá, muié”.
Se fosse qualquer outra pessoa me dizendo isso eu daria um fora dos bons, mas com ele eu dava risada e dizia que eu não ia trabalhar nunca e que quando acabasse o dinheiro de papai e de Erica, eu ia usar o dele.
“O meu?! O meu não!!! Vai trabaiá”.
E eu caía na risada.
Uma das poucas pessoas da família C. que eu gostava.
Esse era meu Tio Cizé. Uma pessoa bruta e doce.
Um adulto de 49 anos (completados na quinta-feira) com o coração puro de uma criança.
05/07/08.
Vai com Deus, Tio.
Esse enfarte fulminante que te levou só nos fez ver que fulminante é a vida e sem você ela perde um pouco do brilho.
O nosso susto diante da perda é ínfimo perto do susto que você poderia levar em saber quantas pessoas estavam presentes no seu velório, do quanto você era querido e amado.
Vovó veio te buscar como prometeu. Agora você está do lado de quem você sempre cuidou e de quem sempre cuidou de você.

