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sábado, 5 de julho de 2008

A eterna criança crescida

Quando eu, Erica e nossos primos e primas éramos crianças nosso Tio Cizé sempre foi alvo de nossa imaginação.

Ele era diferente dos outros tios. Era o único que não era casado e não tinha filho pra brincar conosco. E morava com nossos avós. Veja só!


E ele para nós sempre foi um mistério.

“Mãe, ele fala inglês? Eu não entendo o que ele fala”.

Somente aos poucos fomos aprendendo o que significava deficiência auditiva.


Mas o mistério que rondava Tio Cizé estava ainda mais ligado ao seu quarto. Ele sempre andava com a chave do quarto e o deixava fechadinho da silva. Queríamos passear por lá, ver o que tinha dentro, mas estava sempre trancado e quando pedíamos para entrar Tio Cizé nos dia, ranzinzamente, coisas que não entendíamos...


Só fomos descobrir o que havia dentro desse misterioso quarto depois que crescemos. Era um quarto como outro qualquer. A diferença era que seu dono era muito organizado e reservado.


Fomos percebendo que nosso Tio Cizé era uma figura ímpar. Bruto e grosso como só aquele quase albino sabia ser. Mas sabem como terminava toda briga com ele? Em risadas!

Sim, em risadas. Não conheço até hoje alguém que tenha raiva dele.


Uma figura realmente diferente.

Daquela que arruma tudo sozinho, lava a própria roupa, trabalha e ama o que faz, não esquecia NUNCA o aniversário de ninguém, que comprava DVD/CD e depois de assistir/ouvir queria vender por um valor mais caro e ainda chamava seus possíveis compradores de “amarrado”, “mão de vaca”.

Uma pessoa que bastava dar um pouco de atenção que ele sorria. Igualzinho a uma criança. Bastava chegar com um presentinho e puxar conversa que ele ia longe. Uma criança crescida.

Minha vó sempre dizia que quando morresse, vinha buscá-lo.


“Lá vou deixar esse maluco aqui sozinho!”.

Então, vovô morreu. Não lembro muita coisa porque eu ainda era muito criança. Mas sei que meu tio ficou cada vez mais apegado a vovó.


Ano passado vovó faleceu. E aí a vida dele começou a mudar. Lembro que no enterro dela, dava dó de olhar pra ele e ver o estado que ele estava. Sua tristeza desesperadora estava ali para quem quisesse ver.

Depois de passado o pior momento, ele começou a elaborar seu luto.

Minha família carniceira só pensava no dinheiro da pensão de vovó e para isso foi à Justiça para ele ser considerado incapaz e receber essa pensão. Ele, então, teve que sair do trabalho que tanta amava e tinha feito tantos amigos com seu jeitão.

Incapaz? Incapaz é quem só consegue enxergar cifras na frente dos olhos

.

Sabe como ele me chamava? Giafa (girafa), dizia que eu ia casar com um negão de Estivas (interior de vovó) e ainda me mandava ir trabalhar:

“Vai trabaiá, muié”.

Se fosse qualquer outra pessoa me dizendo isso eu daria um fora dos bons, mas com ele eu dava risada e dizia que eu não ia trabalhar nunca e que quando acabasse o dinheiro de papai e de Erica, eu ia usar o dele.

“O meu?! O meu não!!! Vai trabaiá”.

E eu caía na risada.


Uma das poucas pessoas da família C. que eu gostava.


Esse era meu Tio Cizé. Uma pessoa bruta e doce.

Um adulto de 49 anos (completados na quinta-feira) com o coração puro de uma criança.


05/07/08.

Vai com Deus, Tio.

Esse enfarte fulminante que te levou só nos fez ver que fulminante é a vida e sem você ela perde um pouco do brilho.

O nosso susto diante da perda é ínfimo perto do susto que você poderia levar em saber quantas pessoas estavam presentes no seu velório, do quanto você era querido e amado.

Vovó veio te buscar como prometeu. Agora você está do lado de quem você sempre cuidou e de quem sempre cuidou de você.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Diversidade

Diálogo no banheiro da boate:
Eu: Amigaaaa, voltasse com Fulano foi?
(ela estava aos beijos com o ex-namorado)
Ela: Não, tô só comendo.
Eu: kkkkkkkkkkkkkk certo, certo.

Essa Amiga Doida está na minha vida há quase 10 anos, daquela amiga grudenta, que está junta em todos os momentos, dos bons aos ruins. Uma figura única.
Lembro do início da adolescência que todos me criticavam por andar com ela.
“Ela é vulgar”
“Ela é mal falada”
“Você vai ficar mal falada também”

Enfim, escutei todo o tipo de comentários sobre ela, no começo eu ficava revoltada e sempre respondia à altura.
Mas com o tempo fui parando de me importar com o que as pessoas diziam, entravam por um ouvido e saíam pelo outro.

Primeiro ponto que eu não era tão tonta assim que não percebesse esses detalhes que as pessoas falavam sobre ela. Ela sempre foi aquele tipo de gente bem escandalosa, que fala alto, sorri alto, grita muito, só anda com roupa curta, colada e com decote, estava sempre de namorado novo.
Lembro que enquanto a maioria de nós estava aprendendo a beijar, ela já tinha transado há um tempo. Sempre a frente de todos. Mesmo na minha época de micareteira pegadora, eu não chegava nem perto dos índices dela (hahaha).

Isso tudo eu sabia, percebia.
Mas sinceramente ficar mal falada nunca me importou. Por acaso eu deixaria de ser amiga de uma menina com um coração de ouro? Sensível, pura, verdadeira, romântica? Uma pessoa capaz de ajudar até o pior inimigo. Uma amiga que até hoje me mata de rir.
Personalidade forte, determinação, força de vontade, resiliência, coragem, alegria, energia.

Aquela pessoa que bastava me olhar um segundo pra dizer: “Ah, Candy, você tá triste por causa de Tiagay de novo?”
(aguardem um post sobre esse cidadão...).
Que chegava lá em casa de surpresa com uma caixa de chocolate, vários cd´s de Exaltasamba (sim, meus caros, eu já fui pagodeira) e um abraço bem forte. Que me ligava a qualquer dia e hora. Que me dizia verdades que as outras pessoas não tinham coragem. Que sabia que podia contar comigo a qualquer dia e qualquer hora. Que me ensinava química, mas a aula só acabava em gargalhada. Que eu brigava por ela estar acima do peso (éramos ginastas).

As melhores amigas. As maiores confidentes (aliás, a maior que já tive até hoje).

Hoje eu olho para trás e agradeço por eu sempre ter tido personalidade forte e ser pouco influenciável por pessoas que só se preocupam com a vida alheia (inclusive meus pais diziam que ela não era boa companhia ¬¬).

E por mais que não nos vejamos todos os dias (e o dia inteiro, como era antigamente) eu sei do carinho e amizade enormes que existem entre a gente.
Caso ela me veja a 2 quarteirões de distância, ela vem gritando, correndo e com os braços pra cima me dar um abraço e um beijo.

É de pessoas assim que preciso na minha vida.
Obrigada, Amiga!

*Não sei por que deu vontade de falar sobre ela.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A Falta Que A ÁGUA Faz

Passei o fim de semana tentando recuperar a pasta com ajuda de Xande (que, aliás, gastou mil horas comigo, tadinho), mas não deu certo.
Bola pra frente.

Parar de escrever besteiras é que não vou, com certeza.
Todo mundo já falou e/ou viveu aquela famosa frase “a gente só dá valor quando perde”.
Alguém já parou para pensar o quão interessante isso é?
O.k., sei que todos já pensaram, mas parece que essa frase teima em se repetir durante nossa vida.

Não, não estou sendo maçante e me referindo à pasta perdida. E sim à água.
“Se referindo à água, Candy?”
Sim.
Dê-me um minutinho que explico.

Essa sexta foram fazer um serviço na caixa d´água da minha casa e para isso foi necessário esvaziá-la e, naturalmente, fiquei uns dias sem água.
A simples ação de abrir a torneira para lavar as mãos teve que ser modificada.
Tomar um bom banho depois de chegar da rua morrendo de calor? Também.
Tudo mudou nesses dias, ficou menos fácil, cômodo e... ahn... digamos... limpinho!

Não podia tomar aquele banho que tanto gosto, abrir a torneira e lavar uma fruta antes de comer, escovar os dentes com facilidade, lavar o rosto etc. Ou seja, tudo mudou.
(Estão imaginando meu banho de cuia? Porque eu estou relembrando aqui... que decadência...).

Apesar de reclamar da situação, eu dava muita risada pelas circunstâncias. Mas eu tinha plena convicção que em poucos dias tudo estaria resolvido e eu teria água normalmente, sem maiores dificuldades.
(agora me imaginem carregando balde de água para o banheiro... ¬¬).

Não estou aqui para levantar polêmicas, nem discussões, nem nada disso. Não sou tão pretensiosa. Apenas quero falar um pouco sobre o que eu pensei durante esses dias.
Como será que um pobre sertanejo sobrevive, ano após ano, dessa maneira?
Como aquelas pessoas, que atendi em uma comunidade carente em 2006, sobrevive se eles precisam descer o morro para buscar um pouco de água barrenta?

Como estará a qualidade de vida da população da minha cidade daqui a poucos anos, já que está boa parte da água contaminada?
Como, daqui a 50 anos, viverão os habitantes desse planeta?
Se tudo continuar como vai, a previsão mais otimista é as pessoas matarem umas as outras por um gole de água (ok... posso ter exagerado um pouco).

Sem dúvida em todas essas situações o homem é criativo o suficiente para arranjar saídas alternativas (assim como arranjei as minhas), mas até quando essa criatividade irá funcionar?

Boa semana!

*Vou respondendo os comentários do post passado aos poucos, mas vou! Aliás, obrigada por cada palavrinha nele.
**Agora já estou limpinha e cheirosa! ui ui ui

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Perdeu-se no caminho

Você leu o título e ficou se perguntando "quem perdeu-se no caminho"?
Pois eu vos digo: Meus textos.
Mas quando eu digo 'meus textos', eu digo T-O-D-O-S os meus textos.
Os que já postei, os que ainda ia postar, os que provavelmente nunca ninguém (além de mim) iria ler...
enfim, TODOS mesmo!
Muitos dos meus sentimentos expostos ali, descritos, entregues...

Eu estou de computador novo e fiquei passando por pen drive os arquivos do velho pra esse. Nesse meio do caminho, essa pasta megaaa importante se perdeu. Lá também estavam todos os selinhos que recebi até hoje, assim como alguns textos de outros blogs que me chamaram atenção.
Essa pasta era como meu refúgio, meu reduto. Um lugar só meu, entendem?

Não quero mais explicar como isso tudo ficou perdido, não quero mais falar sobre isso.
Pra muita gente pode parecer bobice, mas pra mim tem um valor sem igual.
=/
:(

Sei que por causa disso perdi a vontade de postar por uns tempos... vou deixar isso entregue ao pó.
Depois eu volto.
Não sei quando.
Não tenho mais inspiração nem vontade de escrever.

Boa semana e Bom São João!

*aliás, acabei de ter uma idéia de post...
**tenhos dois lindos selinhos pra repassar, mas agora não tenho ânimo :(

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Ser mãe...

Estou há aproximadamente 5h tentando pensar em algo para postar...
o.k., não faz nem 15 minutos...
e não sei o que escrever.
Mas como sou uma blogueira chata que posta mesmo sem ter nada interessante, vamos tentar escrever alguma coisa aqui.

Hoje foi o chá de fralda de uma colega de sala. Imaginem uma sala cheia de mulher, falando ao mesmo tempo, fofocando, gargalhando bem alto, comendo brigadeiro (mulheres = doces) e conversando baixaria da mais baixa possível.
Só que como era "coisa infantil" (chá de bebê), teve muita brincadeira (lê-se prendas), que levava à mais baixaria, mas não é isso que quero falar.

Duas delas já têm filhos e levaram para confraternizar conosco (eles não estavam perto na hora que conversamos 'assuntos de adulto' hahaha).
A menina tem 6 meses e o menininho, 1 ano e 8 meses.
Vitória é a coisinha mais linda e tranquila que se possa imaginar! Toda de rosa, babando, sorrindo (ok, eu sei que é reflexo apenas) e apertando nossos dedinhos (reflexo 2).
Toda mulher que chegava na sala ficava com os olhinhos brilhando de ver uma bebezinha tão linda e doce. Já chegava pegando no colo, brincando, sorrindo feito boba e dizendo
"ai, eu quero ter uma filhinha também",
frase repetida 348724897789 vezes.

Depois que desmanchavam a cara de besta, olhavam pra mim (eu estava sentada do lado do carrinho) e perguntavam
Amiga: "Candy, não quer segurá-la também não?"
E eu sempre respondia a mesma coisa
Eu: "Não, não... sou meio sem jeito, tenho medo de machucar Vitória"
Amiga: "Ah, Candy, que pena... ela é um doce"
Eu: "umhum..."
Amiga: "Você não quer ter filho?"
Eu: "Sim... mas é um dia... está muitooo longe ainda..."
Amiga: "Você que pensa" (risos das meninas)
Eu: ¬¬

E eu sempre achando Vitória e Luís Filipe uns amores, umas graças, uns encantos. Mas eu apenas olhava de longe, mexia um pouquinho e saía de fininho.
Até que a mãe de Luís Filipe me vem com essa:
Mãe: "Candyyyy, segura aqui um pouquinho ele porque eu preciso ir correndo lá fora"
Eu: "Eu?!?!?!?!" (cara de assombro)
Mãe: "Éééé... segura logo!"

Foi aí que eu tive que segurar o garotinho para ele não cair da mesa. Ele olhou pra mim e começou a sorrir. Eu sorri meio desconfiada. Ele mexeu no meu brinco e gargalhou. Eu fiquei meio aperriada e sorri de novo. Eis que ele puxa meu braço pra perto de si e fica abraçado comigo. Retribuí o abraço ainda meio desajeitada.
Mas ele não desistia do contato e ficou aconchegado no meu colo.
Aí eu fiquei toda boba, né?
Dizem que é o espírito materno.

As meninas não perdoaram e já foram dizendo "eu não disse?! Tá mais perto do que você imagina".
Eu me recompus e olhei com o canto do olho.

Um segundo depois Luís Felipe (povo pra gostar de nome composto...) já estava no chão brincando de bola.
Mas sabia ele que me fez pensar o resto do dia...


(continuo dizendo que falta muito tempo...)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Tinha esse trecho de Fernando Pessoa (que dizer, eu acho que é dele...) guardado aqui no meu computador e ao lê-lo hoje percebi que tem tudo a ver com o momento que estou passando.
A vida vai ser sempre a mesma, afinal ela é sua. A forma que você vai viver e olhá-la é que pode ser absurdamente diferente.
Eu decidi mudar e você, vai ficar aí parado?

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...

É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...

Fernando Pessoa


*estou devendo comentários, eu sei. Mas ando meio sem tempo. Prometo voltar logo! \o/


segunda-feira, 16 de junho de 2008

E lá se foi...

Era uma vez uma menininha de vestido rosa. Todos os dias ela ia à escolinha e no caminho tinha uma senhora, vestida de azul, sentada em uma cadeira na calçada.

A senhora parecia acompanhar a menininha andando.

Isso se repetia dia após dia.

Carolina, a garotinha, começou a achar engraçada aquela senhora na cadeira. Primeiro reparou no seu rosto tão encolhido. “Parece um maracujá, mamãe”. A mãe envergonhava-se do comentário inocente da filha, mas não parecia ter um papel ativo em toda aquela situação.

E nem poderia. A relação da senhora e de Carolina ia muito além do que ela poderia imaginar.

Às vezes a velhinha dava um sorriso para a menina, às vezes fingia não perceber que ela passava com seu vestido cor-de-rosa.
A menina ia achando aquela senhora cada dia mais engraçada: sempre vestida de azul, com a pele enrugada, óculos velhos e os cabelos grisalhos. Mas já gostava daquela presença marcante e do seu doce sorriso.

À medida que Carolina ia crescendo e tinha que passar pelo mesmo caminho para ir à aula de música, se incomodava com os olhares seguidores daquela pobre senhora.
“Eu me sinto seguida por aquela velha bisbilhoteira. Ela não tem o que fazer não?”.
Porém Carolina, que agora se chamava Cacá, não tinha outra opção, esse era o único caminho que a levava ao seu destino.

Aquela senhora de sorriso bondoso, outrora, não passava agora de uma velha, chata e metida.
E assim foram se passando os anos. Cacá agora só usava preto e tinha abuso das cores rosa e azul.
A senhora continuava no seu lugar de sempre, na calçada, sentada em uma velha cadeira e com sua roupa azul.

Em um dia chuvoso, enquanto Cacá estava indo ao ensaio da sua banda, reparou na ausência daquela senhora que tinha virado a pedra do seu sapato.
Apenas por curiosidade resolveu perguntar à um vendedor de calçado que em época de baixa venda, vivia na porta da loja.

“Oi... você sabe por que aquela senhora de azul não está aqui hoje?”

“Ah, minha filha, eu ouvi dizer que ela teve um enfarte fulminante e morreu nessa madrugada”.

Cacá saiu desnorteada, nem agradeceu ao vendedor pela informação.
Ela não tinha se dado conta do quanto a pobre velhinha já fazia parte da sua vida, do quanto ela esperava durante todos esses anos por aquele sorriso que era o mais bondoso que já viu na vida.

Só então ela percebeu que a senhora de azul era como uma avó para ela, uma avó que ela não tinha. E como ela foi boba em não ter aceitado o amor da vovó postiça.

Foi aí que ela percebeu o quanto ela tinha evitado a velhinha e isso apenas por ter medo de perdê-la, como já havia perdido tantas pessoas na sua vida.

Por medo da perda ela não percebeu que havia perdido a oportunidade de viver com mais felicidade.

E agora já era tarde demais...


*Inspirado em um post mais meu comentário no blog da Bárbara .
**Não me perguntem o sentido desse texto porque eu também não sei O.o