Páginas

quarta-feira, 19 de março de 2008

Mais um ponto para nos afastar

Dia 07/03/08, véspera do Dia Internacional da Mulher. Papai, mamãe e eu almoçando. Estava acontecendo perto aqui de casa um manifestação em prol da mulher. Lá de casa dava para ouvir, mas não para entender. Enquanto almoçávamos papai ficava brincando dizendo que ele ia lá mandar as mulheres irem “lavar uma trouxa de roupa” e nós duas dizendo que ele ia ser linchado. Tudo na brincadeira até que meu pai fez o infeliz comentário que aquela mulher que estava falando (no momento ela estava aos berros, parecia até uma briga) era “sapatão”. Sim, ele falou com essas palavras. Eu que na hora estava rindo, fiquei séria, fechei a cara e perguntei o que tinha a ver e qual seria o problema se ela fosse homossexual. Ninguém me escutou, como sempre, e acabamos o almoço.

Como eu gosto de cutucar onça, fui dizer ao meu pai em tom de brincadeira (lê-se provocação) que iria arrumar uma namorada mulher. Ele que estava sorrindo fechou a cara na mesma hora e se enfezou. Eu aproveitei para reavivar a discussão e disse que caso eu fizesse isso não haveria problema, pois eu não estaria roubando, matando, traficando, ou seja, não estaria praticando crime algum. Eis que ele me vem com essa “É crime sim! Conta o céu e a terra!”.
Eu fiquei abismada com tamanho preconceito e estupidez, mas ele não me deixou revidar.

Passadas algumas horas ele veio falar sobre um DVD que tinha assistido que abordava o racismo. Completou dizendo que é horrível, que negros não são menos que brancos, fez uma crítica sensata à sociedade. Eu completei dizendo que QUALQUER preconceito é ruim. Ele ou não captou a mensagem ou se fez de doido. Fico com a segunda opção.

Não satisfeita eu levei o assunto para outro dia. Segue o diálogo:
Eu: Erica, tu já sabe que vou namorar uma mulher?
Erica: Namora ué! Só assim você desencalha!
(risada de ambas)
Eu (provocando): E papai adorou a idéia, não foi, papai?
Papai: Idéia de que? Não ouvi.
Erica: Candy arrumar uma namorada mulher.
Papai: Você nem venha com essa história! Vá para lá com essas suas idéias!!!
Erica: Agora deu! O que tem a ver?! Deixa Candy ser feliz!
Papai (louco de raiva): E você não fique incentivando não! Deus me livre que ela me dê um desgosto desse!
Eu: Você é muito preconceituoso! Isso é um absurdo!
Papai: Absurdo é você vir com essas idéias! E vocês parem de falar disso, senão eu vou pensar coisa errada de vocês!
Erica: Errado?! É errado ser homossexual?
Papai: é sim, está na Bíblia!
(clima pegando fogo)
Eu: Não me venha com isso de bíblia não. Deus quer que sejamos felizes!
Papai: pra mim esse assunto acabou!
(ele sai da sala e nos deixa falando sozinhas.
Erica e eu abismadas).

Aí eu volto à vida de uma amiga próxima que é homossexual e enfrenta essa barra em casa porque os pais não a aceitam. Chegaram ao ponto de cortar a comida dela, aliás, só não cortaram a faculdade. Ela ganha um salário mínimo do estágio e é todo dinheiro para comprar a própria comida, artigos de higiene pessoal, tickets, xerox, saídas com as amigas (...), ou seja, tudo! (não entremos no mérito que uma família vive com um salário, o.k.?). Eles não têm diálogo, nada!
E quando a gente (eu e minha amiga) conversa sobre isso eu sempre penso (ops... pensava!) que isso não aconteceria lá em casa, que meus pais me apoiariam e me amariam da mesma forma. Mas é como dizem por aí: nós não conhecemos de verdade as pessoas. Nossas realidades são parecidas. Como as pessoas que amamos podem agir assim? E, principalmente, para que esse preconceito? Qual o motivo disso tudo? Por que as pessoas às vezes conseguem ser tão cruéis? Aonde nosso preconceito do dia-a-dia tem nos levado?

*Pois é... abordei o mesmo assunto novamente. Repetitivo, mas considerei importante.
**Eu não tenho interesse no mesmo sexo (sexualmente falando), somente no oposto. Disse isso em casa apenas para suscitar um ponto de discussão.

Nenhum comentário: